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Diálogo com a Morte

14 de fevereiro de 2009

Hoje tive uma conversa com a Morte que me aguardava acordar bem ao lado da minha cama. Estava sentada com um sorriso feliz no rosto e, se não fosse o sentimento de ter reencontrado uma velha amiga, eu teria me assustado, mas não foi o que aconteceu. A manhã que já começava a sair lá fora, trazia sons de muitos pássaros que celebravam o nascer do Sol, pois ele, assim como eu, havia morrido ontem, antes de ir para cama descansar.

“Quando eu pensar que aprendi a viver, terei aprendido a morrer”. – Leonardo Da Vinci

PRIMEIRAS PALAVRAS
Ela me deu bom dia recostando-se melhor na cadeira e levando um pequeno cigarro a boca. “Nada demais” – dizia ela. “Apenas fumo para relaxar um pouco a conversa com meus clientes e como isto não me fará morrer mesmo, não tenho com o que me preocupar”. Disse estas últimas palavras sorrindo novamente para mim e continuou: “E aí? Está com medo de ter me encontrado?”

Sinceramente, eu não sabia o que responder, mas certamente, com medo eu não estava. Vai ver porque eu já estava a sua espera fazia algum tempo e me impressionei com a forma que ela sorria para mim, como se algo que eu estivesse enfrentando já tivesse sido resolvido e agora, era o momento de apenas relaxar. Mais quando ela falou isso, percebi que, talvez, eu temeria se tivesse que enfrentar novamente uma pessoa que gostaria de chamar para a conversa: eu mesmo em uma versão inacabada de quem sou agora com todos aqueles defeitos e problemas que já enfrentei.

NÓS E NÓS
Por mais que passemos a vida querendo enfrentar o mundo, é a nós mesmos que verdadeiramente enfrentamos. São crises de identidade, crises de relacionamento, crises financeiras, crises religiosas e mais outras crises que fazem com que o nosso amigo imperfeito se rebele com o que tem, enquanto nós tentamos encaixá-lo nesse mundo que julgamos enfrentar.

Lembro-me de quando era bem mais novo e fazia de tudo para ter uma roupa de marca para poder sair com a namorada no final de semana ou então, gastava boa parte do dinheiro que ganhava festejando com amigos datas nada comemorativas, como uma simples quinta-feira de agosto. Essa era uma versão de mim que acreditava que o mundo era o que tínhamos fora e não o que levávamos dentro e que, infelizmente, acabou por provocar algumas das crises citadas acima em muitos que ousaram ter contato comigo.

Imagem por Bobshaw

Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos. – Anaïs Nin

OBSERVAR SEM CONCLUIR
A conversa entre eu e a Morte já se dava a um nível quase telepático, pois a cada pensamento novo que eu concebia, mais uma tragada em seu cigarro ela proferia e um novo sorriso maroto surgia em sua face. Na verdade, parecia que eu estava concluindo o que ela desejava e que aquela presença ali no meu quarto, era somente para me avisar que amanhã pode ser o dia e que eu devo me apressar.

Tiramos conclusões de tudo, até mesmo de quem não conhecemos apenas por causa das roupas que vestem e dos assuntos que falam. Julgamos a todo momento, todo momento. E criamos crises sem fim por causa daquilo que concluímos. É muito mais simples e mais gostoso para nossa construção mental, criar mensagens de auto-destruição dizendo-nos sempre que algo terrível vai acontecer, ao invés de enxergar a realidade daquilo que está de fato ocorrendo.

Nos julgamos culpados do crime de julgamento que cometemos e por isso, não conseguimos enfrentar a nós mesmos, quiçá, a nossa morte. Tememos enlouquecidos a tristeza, mas nela nos afundamos. Preferimos acordar bem cedo e ir para o trabalho batendo a cabeça no vidro do ônibus, do que lutar pela liberdade e, conseqüentemente, enfrentar nossos medos e próprios julgamentos.

E NA HORA DE IR EMBORA?
Bem, esta foi uma pergunta que a Morte me deixou, ao levantar-se lentamente da sua cadeira. Olhando-me fixamente nos olhos com todo amor, apagou seu cigarro pisando-lhe com o pé direito e caminhando para a porta do meu quarto, repetiu a pergunta acima emendando um pequenos discurso a que me ponho a refletir neste momento:

“É amigo, você já percebeu que quase trinta anos da sua vida se passaram e tudo o que você faz é para vir se encontrar comigo? Não importa o que você faça e nem a maneira como age, tudo leva você para um encontro às escuras com a sua melhor amiga: eu. Amiga porque sei de toda a sua vida em detalhes e não lhe julgo, apenas lhe apóio no que você decidir ser melhor para você.

Talvez, se você começar a levar a sua vida dessa maneira nesses poucos dias que lhe restam aqui, compreenderá que se tomar decisões naquilo que lhe é melhor e lhe faz bem, ficará mais feliz, leve e relaxado. Pois eu, caríssimo, não me importo se dizem que eu sou uma coisa ruim. Eu apenas faço aquilo que tenho que fazer e que é melhor para mim. Sou o que sou e apenas sou. Sem nome e sem identidade. E você também é apenas – atente-se ao apenas – aquilo que transmite pelos seus olhos.

Enxergar a si mesmo é usar o coração para enxergar quem se é por trás dos próprios olhos.

Enxergar a si mesmo é usar o coração para enxergar quem se é por trás dos próprios olhos.”

E ela fechou a porta e se foi…

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4 Comentários

  • Victor, em 19 de outubro de 2010

    Cara…estou sem palavras
    Simplesmente magnífico o que voce acaba de escrever
    Parabéns!!

  • Jean Pierre, em 14 de dezembro de 2010

    Cara, agradeco a um amigo que me apresentou empreendecast, e ao episodio que participou, conheci teu site, e sou um seguidor, ja li quase tudo que escrevestes, sao otimos textos, e este veio a acalhar com um pensamento(me corrija se eu estiver errado), que tenho a tempos…vivemos para morrer, isto é fato, mas ate hoje nao havia encontrado algo tao simples(facil entendimente) como este teu texto, nao sou um especialista para julgar, mas no meu ponto de vista merece premios…parabens, e Obrigado

  • Marcos Rezende, em 15 de dezembro de 2010

    Jean,

    muito obrigado pelo comentário e pelos “pontos”.

    A vida é simples, a morte é simples. A nossa ilusão é que nos “prende” a
    coisas que não existem.

    Perceba isso e não terá mais porque viver em aflição.


    Marcos Rezende

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    2010/12/14 Disqus

  • Sarah, em 13 de dezembro de 2011

    Eu, o mundo e a morte.

    Penso em deixar esse mundo
    um círculo imenso abrigando vagabundos
    Penso em deixar vida minha
    outra triste romântica libertina

    Penso em esquecer de tudo
    Em fazer lobotomia,
    penso sim, em apagar á mente
    Que guarda imensas melancolias

    Penso em fazer o mundo inteiro me conhecer
    Penso em casar
    Penso em matar… Que vida!

    Se só o sol fosse quente
    A lua seria mesmo fria
    O mar seria apenas ondas
    que se formam em ventania

    Penso em parar de comer
    Penso em parar de beber
    Penso em chorar sem saber porquê…

    Penso em mim
    Penso em você
    Daí penso; nada vale a pena
    mesmo que a alma seja imensa.

    Mas por aí, nada de novo, nada de novo.

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