21 May 2008
Trabalhando em equipe, principalmente quando as coisas saem errado
por Marcos Rezende - Coach de Talentos para Empreendedores
em Coaching; Comunidade; Livros; Meio Ambiente.
Continuando a série de posts em que busco falar sobre a minha experiência, decidi escrever sobre um acontecimento, que talvez tenha sido, o de mais amplidão na minha vida, pois fui capa de um jornal de grande circulação no Rio de Janeiro e a notícia também parou na internet.Em setembro do ano de 2005, quando estava com 26 anos, recém-divorciado, fui fazer uma caminhada com mais seis amigos na Serra do Mendanha no Rio de Janeiro. Nada muito complicado. Apenas iríamos cruzar aquela serra em busca de uma cachoeira que, segundo um de meus amigos que guiava essa expedição, era uma das mais lindas daquele local e também de acesso muito fácil. Dizia ele que provavelmente chegaríamos ao nosso objetivo por volta das duas horas da tarde e que poderíamos retornar antes das dezessete horas, evitando assim que ficássemos lá até o anoitecer.
Mochilas nas costas com alguns equipamentos básicos e algum suprimento, iniciamos a nossa entrada na mata às oito da manhã, quando o sol já começava a se firmar no céu, em um dia meio nublado na cidade maravilhosa. Uma entrada já meio estranha, visto que nosso “guia” estava abrindo a mata com facão e não seguindo uma trilha já determinada, o que comumento não ocorre em caminhadas na mata, principalmente quando apenas um participante conhece o caminho. Mesmo assim prosseguimos.
No início, com muito entusiasmo, fomos passando pelos obstáculos que aquela mata fechada nos oferecia. Um a um, os participantes iam passando por cima de troncos, desviando de galhos, ajudando uns aos outros, e enfrentando as adversidades.
Quase duas horas já se passavam quando começamos a escutar um som de água se movimentando, muito similar ao de um rio. Assim, começamos a seguir aquele som. Mais alguns passos e o que tínhamos encontrado nos assustou muito. Depois de duas horas dentro da mata e sem caminho de retorno, o que havíamos encontrado era nada mais, nada menos, que a nascente do rio que prometia nos oferecer algumas centenas de metros abaixo, uma linda cachoeira.
Naquele momento, todos os participantes se entreolharam, mas principalmente os mais experientes, que perguntaram ao nosso “guia” como faríamos agora para encontrar a cachoeira e sair da mata a tempo de não escurecer, tendo em vista que o tempo que deveríamos percorrer entre a nascente do rio e a famosa cachoeira atrasaria toda a nossa programação.
Um silêncio se formou no ar. Um vazio de respostas tomou o nosso “guia” como de sopetão. Não havia explicação. Nosso “guia”, nosso “líder” havia se equivocado.
Uma briga então começou a surgir entre os participantes. Um ex-fuzileiro naval e o participante que guiava a expedição começaram a discutir e discutir sem qualquer foco ou objetivo. Como nada adiantava, achei melhor contornar a situação dizendo que o melhor a fazer era nos fixarmos em nosso objetivo primordial (encontrar a cachoeira) e depois seguir a trilha (já demarcada) que nos levaria para fora da mata a partir daquele ponto.
O que fizemos a partir daí, foi uma lição de vida para todos os participantes daquele aventura (três homens e quatro mulheres), estabelecer, com base nos talentos de cada um, o que cada participante poderia fazer para ajudar a equipe a sair do sufoco.
O ex-fuzileiro naval passou a guiar o grupo rio abaixo, porque tinha conhecimentos para identificar sons de animais peçonhetos que poderiam estar à nossa frente, estava munido de uma pequena lanterna e já tinha passado por treinamentos semelhante quando membro da Marinha do Brasil. O participante que antes nos “guiava” passou a ajudar as meninas durante o percurso do rio, já que tomamos a decisão de descer a serra por dentro do rio mesmo, uma vez que este nos levaria a cachoeira, alguns metros mais adiante. E eu, fiquei fechando o grupo, sendo o último da fila e o responsável por carregar uma mochila grande com os equipamentos de todos, devido à minha estatura ser a mais alta e por isso manter nossos equipamentos e alimentos fora d’água.
Reorganizados e focados em nossa meta. Encontramos algumas horas depois a cachoeira e com a ajuda dos bombeiros do 13º GBM, às duas da madrugada do dia seguinte conseguimos sair da mata vivos e ainda unidos como uma equipe gerida com base nos talentos e habilidades de cada um de seus membros.
Outras lições foram aprendidas neste dia, mas eu somente quis ilustrar com esse texto, o que acontece a uma equipe que foca nas qualidades e não nas debilidades de seus membros. O que aconteceria se uma das participantes, auxiliar de enfermagem, fosse designada a guiar o grupo ao invés do ex-fuzileiro naval? Ou ainda, se a pessoa mais baixa do grupo fosse designada a carregar todo o peso do grupo sob a água?
Muitas equipes pelo mundo afora ainda não estão se organizando com base nos talentos dos seus membros e isto prejudica muito a performance desses grupos e dessas organizações. Estou lendo o livro A Era dos Talentos de Mauro Press que trata justamente desse assunto. Segundo informações contidas no livro e baseadas em pesquisas do autor, existem mais de 600 talentos naturais e cerca de 80% da população que não sabem ou então não utilizam seus talentos.
É espantoso e terrível esta situação. Precisamos sair da mata o quanto antes e mudar nossos grupos, organizações, empresas e todo mundo. Essa é a mensagem.


